A Reserva Natural do Garajau é um troço protegido de costa e fundo marinho perto do Caniço, na costa sul da Madeira, criado em 1986 como a primeira reserva marinha de Portugal. Décadas de proibição da pesca transformaram um recife antes esvaziado numa das zonas com maior densidade de vida marinha da ilha. Eis o que está realmente protegido, o que se vê debaixo de água e como lá chegar.
O que é a Reserva Natural do Garajau?
É uma área marinha legalmente protegida que se estende por cerca de sete quilómetros de costa, entre a Ponta do Lazareto, já nos limites do Funchal, e a Ponta da Oliveira, no Caniço. Criada em 1986, foi a primeira reserva marinha alguma vez estabelecida em Portugal, anos antes de proteções semelhantes chegarem ao continente. A reserva abrange tanto as rochas junto à costa como o fundo marinho até uma profundidade definida, e é hoje gerida pela autoridade regional de conservação da natureza da Madeira.
Porque é que o Garajau se tornou a primeira reserva marinha da Madeira?
Porque o recife tinha sido pescado quase até à exaustão. Por volta dos anos 80, décadas de pesca com arpão e de rede ao longo deste troço de costa vulcânica tinham praticamente eliminado as espécies maiores e de crescimento mais lento — os peixes que levam anos a atingir a maturidade foram os primeiros a desaparecer. A legislação de 1986 proibiu por completo a caça e a pesca dentro dos limites da reserva, dando ao recife aquilo que um terreno sobrepescado raramente tem: tempo, completamente em paz. Tornou-se o modelo sobre o qual outras reservas marinhas madeirenses, incluindo a das Ilhas Desertas, foram depois construídas.
O que se pode ver debaixo de água no Garajau?
Peixes que envelheceram, o que é mais raro do que parece. Décadas sem pressão de pesca significam que o Garajau tem hoje uma população saudável de garoupas — uma espécie que pode viver dezenas de anos e ganha mais peso quanto mais tempo for deixada em paz, por isso um exemplar grande aqui é um sinal direto de que a proteção está a resultar. As moreias escondem-se nas fendas das rochas, as enguias-de-jardim balançam nas zonas de areia, e polvos e grandes cardumes de sargos e donzelas movem-se sobre o recife em números que não se veem na costa desprotegida ali ao lado. Raias, incluindo por vezes a jamanta, passam pelas águas mais profundas na orla da reserva.
A estátua do Cristo Rei faz parte da reserva?
Legalmente não, mas é o marco incontornável da reserva. A estátua de 15 metros de Cristo Rei ergue-se no alto da falésia da Ponta do Garajau, de braços abertos para o Atlântico, inaugurada em 1927 — alguns anos antes da célebre versão do Rio de Janeiro, e construída no mesmo estilo Art Déco pelo escultor francês Georges Serraz. Fica mesmo por cima das águas que hoje vigia, e o miradouro em torno da sua base oferece um dos melhores panoramas gratuitos da costa sul da Madeira, olhando diretamente para o recife que partilha o seu nome.
Dá para mergulhar ou fazer snorkeling no Garajau, e onde se vai?
Sim, e é a principal razão pela qual as pessoas vêm até cá. O acesso público é no Caniço de Baixo, onde uma plataforma junto à praia leva diretamente às águas da reserva, tornando este um dos locais mais fáceis da ilha para fazer snorkeling sem barco. Vários centros de mergulho estão sediados no mesmo pequeno resort e organizam regularmente mergulhos a partir de barco ou da costa dentro da reserva, com uma visibilidade que no verão ultrapassa frequentemente os 20 metros. Quem fizer snorkeling por conta própria deve manter-se perto da costa e afastado dos fundeadouros dos barcos de mergulho, já que algumas zonas são reservadas ao tráfego de mergulho.
Dá para chegar ao Garajau de barco a partir do Funchal?
Sim — é um curto percurso para leste ao longo da costa a partir da Marina do Funchal, perto o suficiente para que os barcos sediados na marina passem por ali a caminho do Caniço e de Santa Cruz. Os percursos da Chifbay seguem na direção oposta, para oeste, rumo a Câmara de Lobos, Cabo Girão e Fajã dos Padres, mas o mesmo princípio aplica-se em ambas as pontas da costa: um barco privado leva-o diretamente para cima de águas que valem mesmo a pena ver, em vez de as observar a partir de uma estrada no alto da falésia.
Quarenta anos a deixar um recife em paz fizeram por ele mais do que qualquer programa de repovoamento alguma vez conseguiria.
O Garajau não é dramático como o Cabo Girão ou as Ilhas Desertas — não há uma falésia imponente nem um espetáculo de vida selvagem em mar aberto. O que oferece, em vez disso, é mais discreto e, à sua maneira, mais notável: a prova de como fica a costa da Madeira quando simplesmente se deixa que ela recupere.